Amamentação
Na mesma época em que fiquei grávida, duas das minhas primas ficaram também, isso foi ótimo, porque a gente conversava muito. E compartilhava os acontecimentos.
Mas elas estavam adiantadas em mim em um quesito: o leite.
As duas começaram bem cedo a produção, era só dá uma apertadinha no seio, ou tomar um banho, que jatos de leite eram despejados loucamente. Lindo né?
Mas comigo não foi assim. E meu sinal de alerta começou piscar.
Hora de ajudar na produção então! Alimentação (coloque aqui até as coisas mais estranhas, como rezam algumas lendas), líquidos (aqui também entrou muita coisa estranha) e massagens estimulantes passaram a ser prioridades.
Mas o tempo passou e o bebê nasceu. Parto normal, tudo lindo! Mas somente quarenta minutos depois trouxeram ele pra ficar comigo. Bora mamar então! O menino tinha uma pega linda. Sabia o que tinha que fazer.
Mas nada de colostro.
Não posso negar que o hospital, as médicas e as enfermeiras me ajudaram muito. "Bota no peito que vai estimulando" " As vezes demora pro colostro descer" "Aperta aqui" "Aperta ali" " Mãezinha não chora, no começo é difícil mesmo, mas vai dá certo" eram coisas que ouvia muito.
No dia seguinte o bebê é vacinado de manhã. Uma febrezinha aparece. Culpa da vacina. A tarde ainda tinha febre e a noite também. E na manhã seguinte também.
E os choros? Só pioravam. Meu e dele.
E continua tentando o peito. Mas nada da produção aumentar.
Nesse momento eu já estava desesperada. A pediatra levou pra fazer exames.
Ela achou melhor não esperar muito e com dois dias de vida, o antibiótico entrou na vidinha dele.
E pra quem teve a graça de não passar por um momento como esse vou dizer: é horrível! Horrível ver seu bebê com aquele bracinho roxo, com sinais de agulhada perto da sobrancelha (pra não furarem demais os mini-bracinhos).
Bebê medicado, mas o choro continuava.
Agora os dias e as noites eram de pé. Andando por todo o hospital. Quase todo mundo dormindo, menos eu e ele. Tentava acalentá-lo nos meus braços, mas só conseguiamos caminhar e chorar.
Pausa
Aqui quero confessar que fui tentada a deixá-lo mamar em outra mãe. As outras mães da maternidade já estavam com dó dele e de mim, e perguntaram se eu deixaria elas amamentarem.(Escondido é claro!)
Mas não consegui deixar. Tive medo.
Despausa
No outro dia, saiu o resultado dos exames. Nenhuma doença, graças a Deus.
O que não saía mais era o choro, porque ele não tinha mais voz. Chorou tanto, tadinho, que em vez daqueles gritos comuns em RN, o que se ouvia era grunidos, quase sem som.
Isso me a-rra-sou!
Pediatra então me chamou pra falar do resultado. Resumidamente: f-o-m-e.
Todo esse sofrimento causado pela fome.
E vamos colocar no peito. Toda hora. O dia todo. E ele tentava, e me empurrava com as mãozinhas porque não saia nada, e os protetos vinham com seu choro sem voz.
Agora a pediatra pediu pra complentar com LA.
Meus estado já era de esgotamento. E lá foi o menino pra incubadora. Muito bilispot nele, porque a icterícia estava bantendo na porta.
E como doía meu coração quando, depois de ficar com ele por uma hora no seio, a enfermeira trazia o complemento, cerca de 10ml, e ele só faltava engolir a seringa. E pedia mais. E sugava rápido. Desesperadamente.
Graças a Deus ele só ficou na incubadora por 24h.
E no outro dia, a pediatra deu mais algumas explicações, dietas, pediu pra que eu utilizasse a bombinha e nos liberou.
Foi um sonho. Home sweet home.
Chegamos em casa e tomo finalmente um banho digno.
Agora rotina de RN em casa: peito-sono-bombinha-banho-peito- bombinha-sono-peito... Mas continuava a baixa produção de leite.
"Agora papai tem que chupar, porque papai tem mais força" (assim dizia minha vó) e lá vai maridão fazer o trabalho! Nada.
E na primeira madrugada em casa. Três da manhã o Enry acorda pra mamar. Coloco em um peito nada, no outro nada... Enry começa a chorar copiosamente. Pega a bombinha, nem 3ml. Enry continua chorando. E agora?
Maridão pega a lista telefonica e tenta encontrar farmácia 24h. "Ahh beleza, Fortaleza não tem farmácia 24h!" Enry continua chorando.
E eu penso: porque eu não passei na farmácia e comprei uma lata de LA meoDeus?
Já estava com trinta minutos que o Enry chorava, que eu bombeava os peito (quem sabe não saia um sanguezinho pra alimentá-lo né?), que marido tentava achar uma lata de LA. Nessa hora a casa já estava toda acordada. Talvéz os vizinhos também.
Então minha mãe (que estava em casa) perguntou: "quer que eu faça um chá pra ele?"
Momento tenso.
Mas chá de que? Eu nem mesmo sabia que tipo de chá um RN poderia tomar!
Só tinha erva-doce em casa. E foi feito. E ele tomou tu-di-nho, uns 60ml. E dormiu até as 7h da manhã.
Ufa! Finalmente ele tinha saciado a fome.
E o que senti na hora foi uma alegria imensa. Sabe por que? Porque eu entendi (na marra) que criança feliz é criança de barriga cheia, saciada.
Na manhã seguinte a pediatra indicou um LA. Que o Enry tomou até 6 meses. Nunca sentiu desconforto, nem cólica, nem nada.
E se você me perguntar se eu senti culpa. Te digo que sim, muita!
Mas não culpa por não ter amamentado. Culpa por ter demorado tanto a enxergar e admitir que não tinha leite.
Como eu pude deixá-lo com fome? Como eu pude deixá-lo chorar tanto até ficar sem voz? Até ter que tomar antibiótico? Como eu pude fazer isso??
E essa culpa vai demorar muito a dissolver de dentro do meu coração.
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Claro que hoje aprendi muito sobre amamentação e produção de leite, a desinformação faz muita diferença.
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Quero agradecer a minha família e ao maridão por todo apoio que tive nesse momento tão difícil!
Espero que tenham gostado de conhecer a nossa querida amiga Ivna.
Mamãe Valéria Sandry